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domingo, 16 de janeiro de 2011

Uma saga por terra e pelo ar, sob chuva, para salvar a família

Tarden, finalmente, com a família: resgate depois de 35 km de caminhada
Depois de caminhar 35 quilômetros na chuva, ele conseguiu. Fábio Tarden saiu de Vargem Alta e foi até o 11º BPM em Nova Friburgo para pedir um helicóptero. Sua mulher, Ana Paula, e seus três filhos, com idades entre um mês e quatro anos, estavam ilhados na casa onde moram, no bairro de Catarcione. Com uma pequena trégua no mau tempo, foi possível chegar até eles neste sábado. As crianças choravam muito, e nem o balão branco entregue pela policial foi suficiente para distraí-las. “Não agüento mais, não aguento mais”, repetia Ana Paula.


Depois de passar pela triagem médica, a família foi para o refeitório, a primeira refeição sem medo em quatro dias. Até então, a comida era pouca e a água, racionada. Tarden estava trabalhando em Vargem Alta quando a tragédia começou. Vive da plantação de rosas, crisântemos e chuvas de prata. Tudo perdido. “Mas o pior é o tanto de corpo que tem por aí. Ninguém imagina”, diz. O resto da família estava no outro lado da cidade, esperando que ele voltasse e conseguisse salvá-los.

Os pés de Ana Paula, em chinelos de dedos cheios de barro, sacodem ansiosos embaixo da mesa. “Não quero ficar em abrigo, precisamos ir para a casa da sua mãe. Pede para levarem a gente”, pede ao marido, mais de uma vez, enquanto devoram marmitas de arroz, feijão, purê de batata e bife. Ana Clara, de 4 anos, se dá conta de que tem um brinquedo, e agora sim dá bola para o balão branco marcado por mãozinhas de lama. “Olha mãe!”, diz, ensaiando uma felicidade.

Tarden ainda precisa encontrar a irmã, sua segunda missão. “Minha mãe fica me ligando e perguntando se já tenho notícias dela. Eu minto, falo que sim, que está beleza. Vou falar o quê? Que não sei se está viva ou morta?” Os policiais do batalhão prometem ajudar assim que a chuva parar. Em poucos minutos, o que era uma garoa fina vira tempestade. E Ana Paula, Tarden, as três crianças e toda a cidade de Nova Friburgo, voltam a respirar mais forte. Provavelmente, não é nesta tarde que eles irão para casa, nem terão notícias de quem procuram.

Manuela Franceschini